::vinagre de pinheiro::



Quarta-feira, Dezembro 31, 2003


::2003 está acabando... e quer saber? já vai tarde!

::e 2004 promete, em abril serei o mais novo desempregado formado em artes plásticas, completarei um quarto de século de vida, e vai ter bienal em sampa...

::não escrevo mais pq meu corpo dói, estou com sono, mas nem vou dormir... tenho algumas roupas para fazer ainda esse ano...

::Até ano que vem, ou até daqui a pouco...




Domingo, Dezembro 28, 2003


::Ele deixou de acreditar em papai noel muito cedo. Vivia chegando por trás e dando sustos na mãe, ela dizia "Um dia eu morro dos sustos que vc me dá menino!". Ele ria... Um dia sua mãe liga a tv e morre de susto. Não suportou. Ao vivo, em todos os canais, aquele menino havia matado cinco pessoas com a arma do seu marido. Foi o último susto que deu em sua mãe.

::moral da história: mãe sempre tem razão...




Segunda-feira, Dezembro 22, 2003


continuando...

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Pegou seu vestido florido de mangas curtas e decote em U. É bem velhinho, o usa desde os dezessete anos. Ela gosta do toque da viscose amaciada no corpo. Não teve coragem de fazer uma trança, apenas prendeu o cabelo com um elástico. Um rabo de cavalo que revela um sinal, um dos muitos que habitam seu corpo. Nada de especial tem-se a dizer deste sinal, é apenas um sinal numa nuca branca...

Sai de casa, enquanto gira a chave fechando a porta, lembra da janela de seu quarto que ficou aberta, mas nem se importa, mora no sexto andar, pouco provável que alguém entre por ela. Indo para o ponto de ônibus sempre olha para a casa de número 202, e sempre espera ver aquele senhor tão simpático, de cabelos tão branquinhos, e de conversa tão agradável. Se atrasou várias vezes só para ouvir, entre sorrisos, suas histórias. Mas faz tempo que não ouve história alguma... cerca de um ano atrás, seu porteiro informou que Seu Djalma havia falecido. "Parece que foi coração". Nunca mais verá aquela imagem de como um avô deve parecer (seus avôs morreram antes dela nascer), hoje viu apenas a árvore de natal com metade do pisca-pisca funcionando.

O primeiro ônibus a passar não é o que leva ao centro da cidade, mas um que passa em outro lugar onde ela não vai a alguns meses. "...é, podia passar lá hoje...". Em trinta e cinco minutos chegou lá. A fila nem estava tão grande, os portões abriram cerca de duas horas antes. Vai até a feirinha ao lado, compra pêras, ele gosta de pêras. Escolhe as maiores e mais maduras. Sabe que ele odeia frutas verdes, não tem paciência de esperar amadurecerem. Uma novidade lhe chama atenção, uma banca de revistas próxima ao prédio. Não esperava encontrar muita coisa por lá, o bairro é muito popular, dificilmente encontraria as revistas importadas que ele costuma ler, mas consegue comprar uma Bravo. "Sabe que você é a primeira pessoa a comprar essa revista?" o jornaleiro também lhe diz que essa revista veio por engano e perguntou se ela compraria sempre para ele fazer o pedido nos próximos meses. Não soube o que dizer, apenas sorriu.

É a quinta da fila, em pouco tempo chega a sua vez, se identifica, tem que mostrar suas bolsas e ser revistada. Tudo OK. se encaminha para o grande pátio. Ele a vê primeiro. Corre e lhe dá um abraço, e por muitos instantes não dizem nada. Apenas se abraçam forte. Ainda calados vão para o banco de cimento, ela senta e ele deita a cabeça em seu colo. Ele não fez cobranças quanto a sua ausência ela menos ainda dá explicações. "Ele ainda têm os olhos mais lindos que já vi", "Ela ainda usa o perfume que lhe dei de presente natal passado..", pensam. Ela passa a mão em sua cabeça, ele toca a sua mão. Ela começa a tirar os anéis, ele entende o recado, senta no banco e começa a massagear suas mãos. Hábito que começou quando se conheceram na faculdade. Ele massageava muito seus ombros, até o dia que ela se queixou que suas mãos viviam doloridas por conta do seu trabalho, ele, sem coragem inicialmente de pegar em sua mão, inventa essa massagem, adaptando a técnica de se massagear pés. Ela gostou da massagem, ele gostava de pegar em suas mãos.

Ao começar a massagem, quebra-se o silêncio. Ele elogia seu cabelo e diz que ela continua linda como sempre, ela beija seu rosto. "-Suas mão sempre tão frias..." "-Mas você ainda gosta de tocá-las não?" "-Sempre, sempre, você sabe disso...". Nunca precisavam falar muito para se sentirem a vontade, podiam passar tardes sem trocar uma só palavra, seus olhares já falavam bastante. Hoje, os olhos dele estavam tranqüilos, claros, parecia ter tido uma boa noite de sono. Os dela diziam quase nada. "Aconteceu de novo?", ela assentiu com a cabeça. "Então vou massagear seus ombros também...". Ela nunca pedia nada, mas dele conseguia tudo.

Três horas ficaram juntos, conversaram os mesmos assuntos e fizeram as mesmas coisas de quando ficavam juntos esperando as aulas da tarde começarem ou quando matavam aula. Porém, hoje, o fim deste encontro não era uma aula que iria começar. Tenho que ir... ele segurou forte sua mão, se beijaram. Ela partiu, mais uma vez, ela sempre parte, e nunca diz quando volta. Não gosta de criar expectativas, mas nunca obteve sucesso quanto a isso. A ele cabe apenas observar aquele vestido florido ir embora sobre aquele corpo cheirando a Flower...



ainda continua e a primeira parte vai receber umas mudanças...




Sábado, Dezembro 20, 2003


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Prezado Artista,
Informamos que a Seleção para o Projeto Trajetórias 2004, que ocupará as Galerias Vicente do Rego Monteiro, Baobá e Massangana, ocorreu no dia 11.12.2003 com a participação dos especialistas em Artes Visuais, Daniela Bousso, Moacir dos Anjos e Cristiana Tejo, esta curadora da instituição.

Dos sessenta e quatro inscritos, foram selecionados os projetos dos seguintes artistas: Denise Gadelha (Grupo EL Paso)(RS), Élder Rocha (DF), Edson Lucena (PE), Fábio Kneese Flaks(SP), Fernando Augusto(PE), Francisco Fernandes(RJ), Letícia Cardoso (RS), Marcos Costa (PE), Martha Penner (DF), Renato Bezerra de Mello(França) e Sidney Azevedo (PB) As datas e galerias serão anunciadas ainda na próxima semana, devido à negociações entre a instituição e os artistas.

Sendo tudo o que se apresenta para o momento, apresentamos os nossos cumprimentos.

Atenciosamente,
Cristiana Tejo
Coordenadora de Artes Plásticas
Instituto de Cultura
Fundação Joaquim Nabuco


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bem, não foi dessa vez... mas já estou cheio de idéias para trabalhar!




Terça-feira, Dezembro 16, 2003


::meninos... nada da pauta de exposições da fundaj pra 2004...








::inventei de ir lá... sabia que ir assim sem avisar correria riscos, mesmo assim fui.

::chegando perto, toda a dor de existir parecia esvair-se... e existir hoje era quase insuportável...

::subi as escadas, pensei sentir teu cheiro, minhas esperanças estavam altas, ia apertar a campainha, logo acima dela um bilhete, pela caligrafia escrito às pressas: "fui, não volto hj"

::você não volta há tempo... eu é que não aprendo... não há como cortar tuas asas de prata

::logo todo o peso volta... minha cabeça dói, minhas pernas ardem, até minhas roupas pesam... nada deixo, vestígio algum da minha presença... mais uma vez falhei

::só mais uma madrugada com esse grito que não nasce... e que não aborto




Sábado, Dezembro 13, 2003


::Semaninhas puxadas essas últimas... pouco tempo e energia pra aparecer por aqui... mas está tudo bem.

::fiz inscrição pra pauta da galeria da FUNDAJ semana passada, o resultado vai ser divulgado provavelmente na segunda. Manterei vcs informados.

::expô nova no MAMAM, excelente, visitem, está do jeitinho que gosto, muito preto e branco, salas escuras, um clima intimista... os artistas são: José Rufino, Oswaldo Goeldi e Jorge Molder.

::depois falo melhor deles, estou no trabalho agora. Abraços fiéis leitores!


eu na Oficina do Tempo




Sexta-feira, Dezembro 05, 2003


:: atendendo a pedidos... estou de volta. o texto do post anterior (mas que vc lê a seguir) é um conto que estou desenvolvendo para uma disciplina da universidade... aguardem os próximos capítulos...








Acordou. O corpo todo lhe doía. Aconteceu mais uma vez. Nem recordava a última vez que ocorrera. Ficou contente que tenha sido enquanto dormia. Mas sabe que não tardará até que se torne freqüente. Tenta se alongar ali mesmo na cama. E com isto afastar o incômodo. Estica todo o corpo, procura sentir cada parte dele, como se buscasse a certeza de continuar inteira. E viu que nada lhe faltava. Nada. Só a coragem de levantar. Sempre escassa em dias permitidos à preguiça como este, adiando ao máximo sair da cama.

Não era um dia atarefado. Na verdade não tinha planos. Não era feriado, nem dia santo. Não era Sábado nem Domingo, era apenas um dia sem expediente. Ainda assim levantou cedo. Hábito? Pode ser... Já houve épocas de não possuir horários regrados... Abre um pouco as cortinas. Observa o sol, parece gentil. Um bom presságio? Poderia crer que sim, mas nem pensou nisso... Resolve abrir a janela. Seu quarto pede para ser arejado. A luz aceita o convite, e entra, com intimidade tanta que nem pede licença.

Como um cão conseguindo entrar num lugar proibido, a luz bisbilhota as coisas ao seu alcance. Os livros jogados no chão, as roupas na cadeira servindo de cabide, as sandálias sujas da andança do dia anterior. "...elas são forradas com um tecido delicado, quando chegar em casa, sempre passe um paninho umedecido para não ficarem encardidas...", instruções ao recebê-las de presente, não seguidas mais uma vez... A luz bisbilhota também seus pés... E ali, sentada na cama, conclui como anda negligente com eles também.

"...sempre lá embaixo, como me lembrar deles?". Nunca os achou bonitos. Na verdade, não se lembra de um dia ter achado algum pé bonito. Coisas por demais úteis não devem ser bonitas, o belo é fútil, se pudesse tatuaria em seu corpo o prefácio de O Retrato de Dorian Gray. Se pudesse, faria sacrifícios fúteis como este. Talvez não tenha feito por não pensar a sério nisso... Não quer muita coisa, mas dentre as poucas coisas que deseja, estão pés que não doam... nem precisam ser bonitos, nem novos, mas apenas e tão somente capazes de não doer...

Seus pés doloridos a levam pro banheiro. Pode estar o calor que for, a primeira ducha é de água quente. Vai molhando todo o corpo, usa seu sabonete de especiarias. Nota uma diminuta parte da pele endurecida. Uma placa rígida, nem tanto incômoda. Massageia essa placa no midinho de sua mão esquerda. Quando partes do corpo se mantém assim é delicado. "...ele deve estar desacostumado..." Realmente, é provável. Porém nem intenciona descobrir as razões, tão somente massageia seu dedo, até sentir a pele novamente macia.

O banho não demora mais do que o de costume. Já é demorado comumente. Usa ritualmente todos seus produtos. Obedece o tempo de ação de cada um. "...deixe o xampu agir por cerca de três minutos... o condicionador cinco minutos... e o sabonete para o rosto não pode passar mais de um minuto na pele...". as indicações dos rótulos funcionam como um mantra. Cronometra esse tempo usando música. É só colocar um disco, e contar: "...uma música para o xampu, uma e meia para o condicionador e lavar o rosto até o primeiro refrão..."

Hoje não houve música alguma, anda um tanto entediada com os discos que possui. "...posso comprar algo novo hoje..." Enquanto se enxuga, elabora listas mentais, repertórios imaginários, e já sente chegar a ansiedade pelo momento de voltar pra casa e ouvir o novo disco. Como quando criança e conseguia juntar dinheiro para um brinquedo novo. Sorri, ainda consegue ficar contente com algo tão pequeno, e manter uma ingenuidade aparentemente esquecida no passado... como um brinquedo destituído do seu encanto.

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continua...